Segunda-feira, Novembro 09, 2009

mulheres bonitas (5)

gong-li

almoços de família

gosto de almoços de família, com a família toda junta, à volta de uma mesa.
gosto de almoços de família volantes com a família de pratos na mão a tagarelar na sala, na cozinha, no corredor.
gosto do cheiro a comida e perfumes que se mescla nos almoços de família.
do tilintar do vidro dos copos e das gargalhadas.
gosto da musica da família dos almoços de família:
das conversas cruzadas, das pulseiras e da satisfação.
gosto da família aos domingos
com olhos de cama e roupa bonita
com voz de rádio e cabelo lavado.
gosto dos abraços nos almoços de família
dos cigarros fumados em conjunto
das tartes de limão e dos cafezinhos depois de almoço.
gosto do ar bonacheirão e satisfeito com que a família se espraia depois de um almoço de família.
parecem gatos felizes nos sofás, que comeram principescamente, têm mimos e são bem tratados.
é das imagens mais próximas que eu tenho da perfeição.

este domingo tivemos um e foi muito bom…

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Bilhete para Pedro Almodovar


hei-de escrever um bilhetinho ao Almodovar
que lhe vá certeiro ao coração
que o deixe sem forças nas pernas
com as mãos trémulas e a voz embargada.
um bilhetinho simples e directo
com um bocadinho de perfume
dobrado na pontinha superior direita
escrito com a minha letra, a preto,
que reze assim:



olá, Pedro, olha..
se te encostares a mim
(e não penses com isto que sou louca desvairada)
e ficares em silencio
só a ouvir o barulho do arquivo do meu cérebro
durante 5 minutos,
vais ver que será o suficiente para ouvires
a quantidade incontável de histórias de mulheres
que nunca vou conseguir escrever.



Laura

cantiga


as mulheres de tornozelos finos
têm um não sei quê de frágil
que a mim me dá vontade de escrever.
parecem-me, os tornozelos, notas musicais, jarras esguias, palhinhas de refresco…
e então quando caminham, ondulantes, de saltos finos, ao sabor do vento,
empoeiram-se-me os olhos com uma cantiga invisível
e fico ali com ar apatetado
a beber aquele serpentear de estímulos
e a pensar na sorte que tenho, eu própria, em ter tornozelos finos
e ser capaz de ouvir, em certos dias,
a modinha do meu próprio caminhar.

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

some like it hot

um dia destes roubo umas flores da autarquia
pinto o cabelo de louro, corto-o bem curto, faço um "shot" de hidratação
aprendo a falar inglês macio
e a fazer um vibrato de veludo
ponho nos lábios um gloss daqueles que duram muito tempo mesmo depois de beijar
desenho um risco perfeito, nos olhos, de eye-liner
faço uma exfoliação corpo e cara
faço as unhas
e a cama de lavado
e scones com geleia
preparo um tabuleiro com um pano do enxoval
e meto-me na cama ao fim-da-tarde
a cantar baixinho o "poo poo pee doo".
e depois desta lista de coisas sentir-me-ei uma estrela
que mesmo sendo desconhecida
espalha elegantemente os cabelos na manta de seda
segura uma flor de encontro ao peito
e acredita que as pequenas coisas podem dar origem a grandes momentos.







mulheres bonitas (4)

kim novak (Vertigo)

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

pérolas (1)


"óculos de sol", 1999. Palavras Loucas Orelhas Moucas.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

that old devil called lau

penso muitas vezes nisto “quando for velha vou ser assim ou assado”.
farto-me de rir com as amigas e as irmãs a conjecturar sobre a cor do cabelo ou os tempos livres.
gostava de ser uma velha “rapioqueira”.
o Word não reconhece este termo, mas eu uso-o para designar alguém com
energia, vontade e óptima disposição.
é assim que eu gostava de ser.
e loura, também.
já agora, magra.
com ossos fortes.
sem pigarro.
com gatos.
com a curva da cintura definida.
sem crises de memória.
com uma cadeira de baloiço.
pouco surda.
sem varizes.
com as pessoas que gosto ainda vivas.
com muitos livros para ler.
com ainda mais cadernos para escrever.
com uma colecção esmagadora de lápis.
com uma colecção patética de borrachas.
com uma coleccção estupidamente absurda de canetas de várias cores.
com uma parede cheia de fotografias de coisas idas e queridas.
com o cabelo mui comprido.
com recortes impensáveis.
com as unhas pintadas.
com baton gloss.
com Moet Chandon para bebericar ao fim da tarde.
com calças justas e botas rasas.
com aulas de ginástica uma vez por semana.
com férias marcadas numas termas.
com pão com manteiga e café com leite.
com riso forte.
sem negro.
em paz.

mulheres bonitas (3)

Loretta Young

este país não é para pombas

quem é que inventará as… cenas?
por exemplo, o termo “estou feita ao bife”. porque não dizemos antes “estou feita ao “filé mignon”? além de ser mais giro o filé quando é bom mete o bife num sapato.
agora usa-se muito o termo “estás-te a esticar”.
acontece-me de vez em quando ouvir assim umas coisas, arrebitar as orelhas face ao total desconhecimento do termo e passados dias ver-me a usá-lo, quase sem me dar conta.
é como quando se diz “tótil” ou “bué”.
gosto mais do “tótil”, se bem que eu ainda sou do tempo do “n”.
estou “n” contente. trabalhei “n”.
fica muito mais giro do que estou “bué” contente. trabalhei “bué”.
em Valongo há toda uma serie de termos que ainda agora me fazem corar. de espanto.
as pessoas chamam-se entre elas “pombas”, “mor” e “rei”.
é vê-las, nos supermercados, com os carrinhos cheios de refrigerantes e leite gordo, com as barriga a verter das calças, a murmurar num sotaque irrepreensível: “ó pomba tens a chabes?”.
ou então os pequenitos ranhosos sentados nos carrinhos a tirar macacos e a fazer com eles bolinhas, e a ouvir a mãe com o cabelo até à cinta a dizer: “tira a mão do nariz, rei!”.
ora tudo aquilo me faz uma confusão bestial.
quer os refrigerantes, quer o leite gordo, quer as barrigas, quer o “rei” e a “pomba”.
ontem fazia compras no intermarché e estou eu na zona dos legumes quando uma senhora velhota viúva de cabelo ralo aos caracóis me pergunta
com um alho francês todo esticado: “ó pomba isto pesa-se adonde?”.
e eu respondi “não sei minha senhora” e logo um senhor baixinho parecido com uma sagres mini, de bochechas vermelhas e barba à capitão Iglo interrompe e exclama num português perfeito “atão bocê não sabe que se pesa na caixa?” – e riu um riso tabágico e mostrou-me a sua rara colecção de dentes e continuou, de chinelos de quarto encabeçando uma família de “bolas” – a mulher, que se rebolava de fato de treino pelos corredores, e as duas meninas, com vestinhos 2 tamanhos-abaixo, que ainda não rebolavam completamente mas iriam fazê-lo muito em breve.
de cada vez que vou ao supermercado aprendo um termo novo e demoro-me sempre mais do que queria já que fico embasbacada a olhar para aquela gente a pontapear abusivamente a nossa amada língua, como se fossem realmente reis e rainhas, ofuscantes e magnificentes, em toda a sua majestade gramatical.

Quinta-feira, Outubro 22, 2009

mulheres bonitas (2)

Veronica Lake

m o s c a s

há coisas que me irritam de sobremaneira.
as moscas são uma delas.
e a culpa é da minha aurora, que quando limpa a casa deixa as janelas abertas de par a par como se fossem uma boca escancarada.
deixa as janelas abertas e as moscas entram.
deixa-me a mim nervosa e às minhas gatas também.
portanto em minha casa moro eu e duas gatas. somos 3.
3 fêmeas nervosas por causa de moscas.
porque às tantas ando eu a chamar nomes às moscas e as minhas gatas em duas patas a emitir sons terríveis com as boquinhas pequenas.
ouvi dizer que as moscas no Outono ficam “chochas”.
não sei o que isso quer dizer mas provavelmente é verdade pois elas rondam-me meias tontas e de vez em quando pousam nos sítios mais incríveis, já pousaram no lábio inferior e imagine-se, no mindinho.
ora isso ainda me põe mais irritada.
é que as minhas gatas gostam de comer moscas mas eu não.
ontem declarei-lhes guerra aberta com um pano da cozinha.
e as gatas ficaram sentadas, a ver-me aos puxões e investidas violentas, com esgares e roncos,
nunca tinha visto as minhas gatas com cara de parvas mas ontem vi.
matei 3.
ficaram as mais resistentes para o combate final, que se avizinha.

Terça-feira, Outubro 20, 2009

mulheres bonitas (1)

Lupe Velez

gosto de mulheres bonitas.

com sobrancelhas arranjadas, unhas pintadas, cinturas finas e cabelos lustrosos.

sou capaz de ficar a vê-las passearem-se como se escrevessem poemas com os saltos altos

sou capaz de as fotografar à socapa, ou nas barbas delas.

gosto de lhes ouvir a voz e roubar os assuntos

gosto da forma como sofrem e abrem o pacote do açúcar

gosto de as ver beber água e escolher uns sapatos.

e porque gosto delas, das mulheres bonitas,

e como conheço tantas

umas pessoalmente, outras só das imagens,

decidi trazê-las aqui

com jeitinho com alma com um sorriso.

e voilá.

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