Sexta-feira, Dezembro 11, 2009


Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

às vezes não, às vezes sim

às vezes apetece-me ter cabelo comprido e às vezes não.
às vezes apetece-me pintar os lábios de vermelho e às vezes não.
às vezes apetece-me ter os lábios compridos e o cabelo pintado de vermelho e às vezes não.
às vezes sim umas coisas e às vezes não tantas outras.

às vezes apetece-me ouvir o silêncio e às vezes não.
às vezes apetece-me rasgá-lo com a voz e os objectos e às vezes não.
às vezes apetece-me ouvir as pessoas e a voz e as histórias delas. às vezes não.
às vezes ouço a antena 2 às vezes não.
às vezes ouço a minha consciência às vezes fecho-lhe a porta na cara.
às vezes gosto de ouvir a tosse do vizinho de cima às vezes não.
às vezes apetece-me agarrar tudo com muita força e às vezes não.
às vezes apetece-me agarrar tudo com muita força e de unhas pintadas de vermelho
e às vezes não.
há dias em que sim e há dias em que não.
há dias em que sou assim e há dias em que não.
e depois há dias em que acordo primeiro que o meu corpo
e fico a ver-me de cima o dia todo
e a pensar "às vezes sim" "às vezes não"
e a escrever num caderninho o sim que podia ser não
e a escrever o não que podia ser sim.
eu sou assim. em muitos dos meus dias.
às vezes não. às vezes sim.

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

os meus filhos

é assim que eu escrevo as minhas peças de teatro.
ando a semear ideias e palavras pela casa durante uns dias.
deixo-as em pó nos móveis, em cabelos nos tapetes
deixo-as a marinar no silêncio durante o dia
a germinarem no sono das minhas gatas.
e depois um dia chego a casa e sento-me
e deixo que elas me ataquem devagarinho
todas, ao mesmo tempo, muitas, todas.
sento-me então, muito mãe,
e precipito-me sobre um papel ou um teclado
e escrevo, seguido, o embrião da minha peça.
e depois de parido, mimo-o, afago-o, modelo-o
e um dia, finalmente, sei que está crescido, robusto,
e pronto.
e é mais um filho que me sai da alma.
directamente para um palco.
que é onde os meus filhos estão bem.

Domingo, Novembro 22, 2009

sure

gostava de acreditar que aquilo que está escrito não mais pode ser apagado.
gostava de acreditar que há marcas indeléveis.
gostava de ler as palavras, gemidas, das minhas mãos.
e marcar, então, a tinta
um percurso inabalável, sereno
que certamente me levasse
e tão simplesmente
eu me deixasse ir.

pois...

o que nos faz sentir pequenos, às vezes, não tem nada a ver com o tamanho.

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

buscopan


dois dias antes de vir o período as mulheres enlouquecem.
eu pelo menos sou assim.
para além de me sentir a mais infeliz das mulheres
vejo espiões nas esquinas e assassinos no metro
alienígenas no supermercado
e criaturinhas vis agarradas às persianas do quarto.
irritam-me o anuncio do Pingo Doce e a animadora matinal da M80.
se não recebo uma sms acho que as pessoas me esqueceram
se a minha mãe não me dá mimos eu telefono-lhe a cobrá-los
apetece-me sempre comprar um trapinho nessas horas miseravelmente tristes: um basicozinho da Lanidor,
um casaquito de malha andadeiro naquela cor que dá com tudo.
apetece-me um tónico capilar e um episódio lamechas da serie “irmãos e irmãs”
apetece-me estupidamente chocolate
arrebatadoramente uma caipirinha
e choro se me põem à frente, para jantar, açorda ou carapaus.
choro a caminho de casa com uma musica
e depois quando paro na portagem não olho para o senhor,
para disfarçar a pintura borrada.
choro uma pinga porque mandei uma cotovelada numa esquina
ou virei o pescoço depressa demais e fico com aquela dor “eléctrica”.
choro porque as sobrancelhas não estão arranjadas.
choro porque sim e porque não.
e rio depressa demais de coisas que não têm qualquer graça
e a seguir choro da vontade estúpida de ter rido.
tenho os nervos debaixo da camisola, abraçados à epiderme
prontos para um ataque indubitável, às dentadinhas.
uma dia antes de vir o período as mulheres enlouquecem menos.
eu também sim.
fico-me pelo buscopan e um pacote de lenços de papel, à mão,
para o caso de ter que chorar em sítios pouco próprios.

i just wanna be me

não quero ser
actriz famosa
cantora imortal
dançarina referencial
não
quero apenas ser-me a mim
com as roupas guardadas de anos
que andam comigo de peça em peça
com os objectos cheios de segredos
e com as pessoas que me acompanham
essas sim, vestem-me de coisas
roupa memórias referências cores sinais
não quero ser outra
quero ser-me assim: eu.
com todos os outros
e as outras de mim.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

where do i begin

às vezes tenho vontade de pegar em certas coisas, metê-las dentro de um frasco,
fechá-las,
abanar o frasco violentamente
até doer a mão e o braço
até que essas coisas percam os seus contornos
e se transformem numa massa informe e desmaiada,
e depois deixar repousar.
abri-lo, então, outra vez
e
comprovar que as coisas que nos incomodam
podem nunca deixar de fazer parte das nossas vidas,
mas podem, e às vezes devem, ficar arrumadas noutro lugar.

tau tau


ou apanhar nos dentes.
ou apanhar uma laustíbia.
ou um piparote.
também pode ser uma galheta.
se bem que uma lambadinha é sempre um gesto com mais ternura.
uma vez decidi meter-me no meio de uma confusão entre marido e mulher.
a mulher apanhava do marido à força toda, no meio da rua, defendia-se como podia pois era pequenota e ele, bastante mais alto, parecia um macacóide, socava-a onde podia.
ora eu saí do carro com os dentes cerrados, punhos preparados e cheguei-me e eles e gritei “largue-a! não tem vergonha?”.
mas não, meus caros amigos, não foi ele que se virou a mim. não. foi ela.
desgrenhada, vermelha que nem um tomate, ajeitou os cabelos furiosos, pôs as mãos à cinta e disse-me, com uma pronuncia vernácula, de norte:

“o marido é meu e dá-me porrada quando quiser!”.
eu de início nem acreditei naquilo que ouvi e acabei por me retirar com uma cabeça que mais parecia um melão e quando cheguei ao carro todos me atiraram a velha máxima "entre marido e mulher ninguém mete a colher".

e by daí, nunca mais meti.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

mulheres bonitas (5)

gong-li

almoços de família

gosto de almoços de família, com a família toda junta, à volta de uma mesa.
gosto de almoços de família volantes com a família de pratos na mão a tagarelar na sala, na cozinha, no corredor.
gosto do cheiro a comida e perfumes que se mescla nos almoços de família.
do tilintar do vidro dos copos e das gargalhadas.
gosto da musica da família dos almoços de família:
das conversas cruzadas, das pulseiras e da satisfação.
gosto da família aos domingos
com olhos de cama e roupa bonita
com voz de rádio e cabelo lavado.
gosto dos abraços nos almoços de família
dos cigarros fumados em conjunto
das tartes de limão e dos cafezinhos depois de almoço.
gosto do ar bonacheirão e satisfeito com que a família se espraia depois de um almoço de família.
parecem gatos felizes nos sofás, que comeram principescamente, têm mimos e são bem tratados.
é das imagens mais próximas que eu tenho da perfeição.

este domingo tivemos um e foi muito bom…